
Fiquei deitada o dia inteiro, como se doente estivesse.
As vezes deitada de barriga para baixo com a mão direita para fora da cama esbarrando no piso frio.
As pessoas falavam distantes. Vontade que estivesse frio.
Uma nuvem eu via flamejante, espessa e densa, límpida e contida. O pássaro cantava, uma sonoridade constante.
Novamente sonhadora... que nem ouvi passadas entrarem em meu quarto e fecharem a porta. A tempo estava sozinha em casa.
Abro lentamente os olhos, encaro o estranho.
Ele sorri senta em minha cadeira e fala-me de seus dias.
Ele não é um estranho. Esperava que fosse?
Conto-lhe os meus dias. Perece que ele é o único que realmente me ouve e compreende.
Não comenta nada até a hora em que termino. Me da um beijo e me consola.
Eu esperava isso desde ontem.
Sinto falta de duas estações, outono e inverno. Das colinas.
Sinto falta das folhas caindo e dos narcisos da primavera.
Sinto falta do frio e do chá que se podia tomar fumegante.
E sentia, isso sentia, falta desses abraços que encostava minha cabeça em seu peito e suas mãos enroscadas em minha cintura. Ouvindo estrelas.
Hoje já não sinto falta disso. Porque?
Porque foi justamente o que ele me fez hoje.
Se pudesse, ele me daria tudo o que sinto falta e tiraria de mim tudo o que me amargurasse.
Simplesmente não falo.
Fico muda.
Querendo que minha vida fosse sempre como hoje.
Como se entrássemos em um mundo que jamais nos pertencerá, aquele longo instante que é simplesmente aquele longo instante.
A vulnerabilidade sempre me assustou. Por esse motivo, sempre escondi meus sentimentos, minhas emoções. Mas com ele nunca consegui. E jamais conseguirei, não importa em que situações estejamos.
" Gostava(gosto) de sonhar, porque a liberdade de sua imaginação tinha (tem) um feitiço embriagador. Cada sonho era (é) a anarquia da mente, a revolucionária revolta do seu inconformismo. Suas ideias escapam de qualquer limite."
Falei isso a ele.
E ele me entendeu. Por que?
Porque simplesmente ele é o oposto de mim.
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